Está a precisar de uma dieta tecnológica?


30 Junho 2021

Já alguma vez abriu o Facebook ou o Instagram e, quando deu conta, tinha perdido a noção do tempo? Interrompe frequentemente o seu trabalho ou outras rotinas para espreitar as redes sociais ou sempre que recebe uma mensagem ou notificação no telemóvel?  Mexe no telemóvel enquanto está a fazer outras actividades, como conduzir ou comer?

Hoje em dia, haverá poucas pessoas que possam afirmar com convicção (e verdade) que não estão dependentes, em maior ou menor grau, da tecnologia e, nomeadamente, do telemóvel. A pandemia e os tempos de confinamento que vivemos vieram acentuar ainda mais essa tendência, com o contacto virtual a substituir o contacto real.

Qual o primeiro passo? Ser honesto em relação à utilização que faz da internet, das redes sociais e do telemóvel no seu dia-a-dia. O Center for Internet and Technology Addiction, nos EUA, tem à disposição vários testes online (em inglês) para avaliar a dependência dos ecrãs. Experimente fazê-los. Talvez se surpreenda com os seus resultados. Eu surpreendi-me, e não foi pela positiva…

Depois disso, se achar que a sua vida pode beneficiar de uma espécie de detox tecnológico, experimente aplicar as dicas que vou deixar neste artigo. Não se trata de ser radical, pôr de lado o telemóvel e apagar os perfis das redes sociais. Trata-se de usar a tecnologia com mais controlo e intenção. Mas, antes de explicar como pode fazer a sua “dieta”, vamos falar sobre os problemas.

Os problemas das redes    

Quem faz parte da minha geração, certamente nunca pensou que um dia existisse um Dia Mundial das Redes Sociais. Não nascemos nesta realidade mas, hoje em dia, ela é omnipresente. E, por vezes, omnipotente. Este fenómeno poderoso tanto nos uniu como dividiu. Tanto aproximou pessoas e territórios, servindo a globalização, como os tem vindo a afastar, acentuando as polaridades e extremismos. E tanto nos faz bem, fortalecendo os nossos laços sociais, como nos traz mais sentimentos de stress, ansiedade, baixa auto-estima, isolamento e até depressão. Onde está a fronteira entre o “bem e o mal”? Na forma como as utilizamos.

Tendemos a passar demasiado tempo nas redes sociais e agarrados ao telemóvel. Os nossos feeds estão constantemente a mostrar-nos vidas que parecem melhor que as nossas, criando o desejo (e a ansiedade) de correspondermos a determinados padrões – de beleza, de vida social, de férias, de rendimentos. E este não é o único problema.

As plataformas sociais, como o Facebook, Instagram, Twitter, Snapchat ou You Tube, foram concebidas para captar a nossa atenção e nos manterem sempre online (afinal, é assim que fazem dinheiro). O problema é que, à semelhança de outros vícios (como o tabaco, o álcool, as drogas ou o jogo), as redes sociais podem gerar dependência psicológica. Quando recebemos um “like” ou um comentário simpático numa foto, o nosso cérebro liberta dopamina, uma hormona que nos dá uma sensação de prazer e recompensa. É fácil perceber como podemos ficar viciados.

As redes sociais também exacerbam o chamado FOMO (“fear of missing out”), o medo de ficar de fora, de perder alguma coisa neste mundo em velocidade acelerada. Sentimos que temos de acompanhar tudo: os posts dos nossos amigos, as intermináveis mensagens nos grupos de whatsapp, os convites nas redes, as notícias que saem a toda a hora…

Além disso, quando usadas de forma excessiva, acabam por ser uma barreira de protecção entre nós e o mundo lá fora. Já pegou no telemóvel em situações em que se sente ansioso, socialmente “deslocado”, sozinho ou para evitar interacção com outras pessoas? Acho que todos já o fizemos. O problema é quando isto se torna um hábito – e sobretudo quando as nossas crianças e jovens aprendem a “socializar” assim.

Como fazer uma dieta tecnológica

Com o Verão já aí, e as férias a chegar para muitos de nós, esta pode ser a altura ideal para fazer uma dieta tecnológica. Vamos ver como fazê-lo, passo a passo.

1 – Monitorize a sua utilização

Saber quando e como usamos o telemóvel é essencial para tentarmos mudar os nossos hábitos. Até porque, muitas vezes, usamo-lo em modo automático, e não porque realmente precisamos de fazer uma chamada ou de mandar um email. Por exemplo: quando acorda, a primeira coisa que faz é pegar no telemóvel e abrir a caixa de correio? E se estiver numa fila à espera para ser atendido, abre logo o Facebook ou o Instagram? Não resiste a abrir estas apps ou as apps de chat mal recebe uma notificação?

Ao longo de um dia normal, monitorize o número de vezes e as circunstâncias em que tem tendência a pegar no telemóvel. Os próprios sistemas operativos iOs e android têm um sistema incorporado que nos permite visualizar diariamente o “tempo de ecrã”.

Segundo o Relatório Digital Global 2019, feito pela Hootsuite e pela We Are Social, cada português passa, em média 6h30 na internet, sendo um terço deste tempo passado em redes sociais. E apenas 21% do tempo passado nestas redes é para fins profissionais.

Quantas vezes, no nosso dia-a-dia, dizemos não ter tempo para fazer uma série de actividades que queremos – exercício físico, ler um livro, práticas de auto-cuidado – mas depois facilmente passamos 10 minutos aqui, 10 minutos ali, simplesmente a fazer scroll no Facebook ou no Instagram ou a ver vídeos no YouTube?