Está a precisar de uma dieta tecnológica?


30 Junho 2021

2 – Defina os seus próprios limites

Depois de saber quanto tempo gasta online, defina um objectivo: quer passar menos meia hora por dia? Menos 1 hora? Convém que o seu objectivo seja minimamente ambicioso, para obrigá-lo a mudar realmente os seus hábitos.

Há maneiras simples de reduzirmos o tempo que passamos ao telemóvel.

Desligar o telemóvel a determinadas alturas do dia ou retirar o som: enquanto conduz, numa reunião, no ginásio ou quando está a fazer exercício, num jantar com amigos ou à noite em casa, quando está em família.

Não levar o telemóvel para a cama: deixá-lo noutra divisão ou, então, desligá-lo. Estará inclusive a beneficiar o seu sono: a luz azul dos ecrãs interfere com na produção de melatonina, a hormona que nos ajuda a dormir melhor.

Substituir o telemóvel por outra “distracção” (por exemplo, um livro ou um jornal/revista) naquelas alturas em que recorre a ele sem precisar (ex: a clássica ida à casa de banho, filas de espera, transportes públicos, etc). Ou então substituí-lo, simplesmente, por nada: limitarmo-nos apenas a estar presentes, a observar o mundo à volta, sem ter de estar sempre a fazer alguma coisa.

Desligar as notificações, pelo menos das redes sociais e das apps de chat, como o Whatsapp e o Messenger. É difícil concentrarmo-nos no nosso trabalho ou no que quer que estejamos a fazer se tivermos o telemóvel constantemente a apitar e a vibrar. Convenhamos: se for algo urgente, ninguém nos vai mandar mensagem, e sim telefonar, certo?

Apagar as apps de redes sociais do telemóvel (se este passo soa muito radical, pode experimentar apagar uma de cada vez): isso vai obrigá-lo a ter de abrir o Facebook, o Instagram ou o Twitter no browser, pôr o username e a password, cada vez que quiser aceder. Uma chatice…

Aderir ao “phone stack game”: certamente já esteve num jantar ou a conviver com amigos e, a dada altura, alguns elementos (ou todos!) estavam agarrados ao telemóvel. Já há um “jogo” para evitar isso. Consiste em empilhar todos os telemóveis no centro da mesa, com o ecrã virado para a baixo; o primeiro a ceder à tentação paga a conta. Garanto que funciona!

Reduzir o número de apps que tem no telemóvel. Hoje em dia, temos apps para tudo e mais alguma coisa: registar o número de passos que damos, o ritmo a que corremos ou caminhamos, ouvir música, fazer meditação, guardar receitas, cozinhar, controlar o que comemos ou monitorizar o nosso sono. Embora muitas delas sejam extremamente úteis, acabamos a criar uma dependência excessiva do telemóvel: este passa a ser uma extensão de nós. Avalie as apps que tem: será que precisa mesmo de todas? Será que algumas podem ser substituídas por outro tipo de equipamento (no caso do exercício físico, um relógio de desporto, por ex)?

3 – Use a tecnologia para controlar a tecnologia

Parece um contra-senso. Mas, actualmente, já há várias apps e ferramentas que nos ajudam a controlar a nossa utilização da tecnologia e que podem ser úteis para algumas pessoas. Geralmente ajudam a monitorizar o tempo que passamos online e permitem-nos criar limites automáticos.

A app Offtime, por exemplo, tem um cronómetro que permite bloquear o telemóvel por um determinado período de tempo. A FocusMe é semelhante, permitindo bloquear determinados sites ou apps pelo tempo que quisermos e criar lembretes personalizados para fazermos determinadas actividades, como sair para caminhar ou fazer meditação.

Outras aplicações, como a Dewo, ajudam a evitar distracções, desligando as notificações e activando o modo “não incomodar” nas apps com chat. Neste artigo, encontra mais algumas dicas úteis para usar a tecnologia a seu favor.

4 – Evite o multitasking digital

O multitasking é cansativo. Nós, mulheres, reconhecidas pela nossa capacidade de fazer mais do que uma tarefa ao mesmo tempo, bem o sabemos. Além disso, tende a ser inimigo da produtividade. O mesmo acontece com o multitasking digital.

Se estou a trabalhar (a escrever este texto, por exemplo) e interrompo o meu trabalho para espreitar o meu telemóvel, porque recebi uma mensagem, estou a desviar a minha atenção para outra tarefa, a ter de tomar novas decisões (continuo a trabalhar ou continuo a responder a estas mensagens?) e a perder a minha concentração e foco mental, comprometendo a minha produtividade.

Este multitasking digital é o corolário daquela sensação de que temos de estar sempre disponíveis a 100% ou do tal FOMO, o receio de ficar de fora. Mas sabia que agora também já inventaram o JOMO (“joy of missing out”)? Experimente, e veja qual deles serve melhor os seus interesses e o seu bem-estar.

5 – Seja selectivo e defina a sua motivação

Pode parecer que a tecnologia está sempre ao nosso serviço. Mas está realmente? É frequente sentir-se irritado com a constante troca de mensagens nos grupos de Whatsapp ou terminar o seu scroll no Facebook ou no Instagram a sentir que lhe sugaram energia ou que a sua vida é infinitamente menos interessante do que as do seu feed?

Se é esse o caso, provavelmente o problema não é apenas o excesso de tempo que passa online, mas como está a usar esse tempo. Há tanta informação, tantas pessoas para seguir, tanto “fear of missing out”, que acabamos a seguir pessoas ou contas que não nos acrescentam nada e, pelo contrário nos fazem sentir inseguros, desconfortáveis ou tristes. Seja selectivo sobre o que decide ver nas redes sociais: siga contas e pessoas que o inspirem e o façam sentir bem.

Se isso implicar eliminar pessoas ou páginas das suas redes, faço-o sem medos ou pudores. Ou, se ainda não consegue dar esse passo, “silencie-os”: vai continuar a segui-los, mas não será notificado sobre a sua actividade.

Ao mesmo tempo, defina a sua motivação para usar as redes sociais. O que é que realmente procura ali e serve os seus interesses e bem-estar? Conectar-se com amigos e familiares que estão longe? Encontrar inspiração? Procurar informação?

Se aceder às redes com base em motivações concretas, a sua experiência será certamente diferente do que abrir o Facebook ou Instagram para ver quantos likes tem a sua foto, porque está entendiado ou simplesmente para ver se “perdeu algo”. As próximas vezes que pegar no telemóvel para abrir as redes socias, faça uma pausa e pergunte-se qual o motivo (real) que o está a fazê-lo.

Fazer uma dieta tecnológica não significa ter de apagar as suas redes sociais ou ficar dias a fio sem mexer no telemóvel. Para a maioria das pessoas, isto pode nem ser sequer realista, atendendo ao trabalho e ao facto de uma grande fatia das nossas interacções sociais serem virtuais, sobretudo nestes tempos de pandemia.

Talvez a palavra dieta nem seja a mais indicada. Pense na alimentação: não será mais saudável ter uma alimentação equilibrada em vez de andar a fazer dietas “yo-yo” e detoxs malucos? O raciocínio é o mesmo. Se formos mais conscientes da utilização que fazemos da tecnologia no nosso dia-a-dia, só temos a ganhar. A sua saúde agradece.

Artigo originalmente publicado no site do Jornal Público

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