Faz sentido falar de alimentos bons e maus?


16 Outubro 2021

Não temos de comer de forma perfeita para sermos saudáveis. E não ficamos com carências alimentares ou doentes se comermos umas batatas fritas ou um bolo. Do mesmo modo que não há alimentos bons e maus, também não somos boas ou más pessoas em função daquilo que comemos.

Sabia que até já existe uma doença para designar a obsessão com uma alimentação saudável? Chama-se ortorexia. Acontece quando a dieta se torna a principal fonte de preocupação, interferindo com o trabalho e relações pessoais, e limitando a nossa vida social. Quando o tema “comida” nos consome demasiado tempo (a planear ou preparar refeições, por exemplo) e o valor nutricional dos alimentos se torna mais importante do que o simples prazer de comer. Quando nos sentimos superiores porque comemos melhor que as outras pessoas. E, claro, quando nos culpabilizamos e punimos porque caímos em tentação e comemos um alimento “mau”.

3 – Comer apenas por prazer é normal e não tem mal nenhum

A comida não é apenas combustível para o corpo, não são apenas nutrientes e calorias pesadas e somadas. É amor, partilha, cultura, tradições e – simplesmente – prazer. Ela serve muitos outros propósitos além da mera nutrição física, mesmo quando são alimentos que estão longe do nosso conceito “saudável”.

A comida conecta-nos a amigos e familiares, cria uma sensação de pertença e faz parte da maioria dos rituais de celebração que temos. O que seria do Natal sem rabanadas ou bolo-rei, por exemplo?

Quando pensamos desta forma, qualquer alimento – até mesmo aquele bolo maravilhoso da nossa mãe – pode ter um propósito e um espaço para acontecer. Em vez de termos uma lista de alimentos permitidos e proibidos, temos escolhas. Podemos escolher comer determinados alimentos porque nos dão energia, nutrição, saúde e outros simplesmente por prazer ou por outro motivo.

4 – A alimentação deve ser bio-individual

Uma das razões pelas quais não devemos pensar nos alimentos como bons ou maus é porque não há uma dieta alimentar que sirva para toda a gente. Os alimentos que fazem bem a uma pessoa podem ser um “veneno” para outra. Limitarmo-nos a uma lista de “bom” e “mau” desconecta-nos do nosso próprio corpo e não permite perceber que alimentos nos dão mais energia e fazem sentir melhor.

A bio-individualidade é isto: a ideia de que cada um de nós tem necessidades únicas de alimentação e que esta deve ser adaptada às nossas necessidades, preferências, estilo de vida e condições de saúde. Ao contrário das “dietas da moda”, que tendem a falhar no médio e longo prazo, uma alimentação bio-individual é para a vida. E isso não quer dizer que ela não vai mudando; pelo contrário: ela também se vai transformando e adaptando às diferentes fases por que passamos.

5 – O fruto proibido é o mais apetecido

O ser humano não lida bem com duas ideias: escassez e proibição. Algo escasso é, por norma, algo com mais valor, mais desejado. E algo proibido exerce sobre muitas pessoas um fascínio e um apelo únicos, difíceis de resistir.

Quando estamos em permanente restrição na nossa alimentação, os alimentos “maus” são vistos como escassos e proibidos, o que tende a aumentar ainda mais os apetites e desejos por eles. E quando cedemos a eles, o que acontece? Sentimo-nos culpados e, muitas vezes, até acabamos a comer mais e a deitar por terra os nossos objectivos. Afinal, se já falhámos, várias vezes, é porque não somos capazes, certo? Esta relação com a comida torna-se pouco saudável e pode mesmo descambar em situações graves de compulsão alimentar.

Então, quer isto dizer que devemos comer tudo o que bem nos apetece, sem restrições? Não. Quer dizer que temos de mudar a nossa perspectiva. Em vez de demonizar determinados alimentos, posso decidir evitá-los no meu dia-a-dia, simplesmente porque não se alinham nos meus objectivos de saúde, me limitam de alguma forma (adoro pão, mas não a barriga inchada com que fico quase sempre!) ou porque tendo a comer em excesso. Posso deixá-los para ocasiões especiais ou para aqueles momentos em que tenho mesmo muita vontade e em que sei – e isto é muito importante – que não me vou sentir culpada depois.

Igualmente importante é percebermos qual a estratégia que funciona melhor para nós em relação à acessibilidade a estes alimentos que desejamos evitar no dia-a-dia. Para mim, por exemplo, serve-me melhor a estratégia “longe da vista, longe da boca”, ou seja, tento não ter em casa os alimentos que não se alinham tanto com os meus objectivos de alimentação saudável. Mas isso não quer dizer que nunca coma nada fora disso: lá está, reservo isso para momentos especiais ou fora de casa.

Em alternativa, há quem possa beneficiar mais da estratégia de ter sempre os alimentos “maus” à mão, porque isso ajuda a contrariar a tal mentalidade de escassez e restrição: se não sentir que aqueles chocolates são escassos, se souber que eles estão sempre ali à mão, talvez não devore a tablete toda de uma assentada. Mais uma vez, a abordagem é individual: cada um de nós tem de descobrir o que funciona melhor para si. E – claro – haverá sempre dias em que nenhuma destas estratégias nos valerá e acabaremos a comer algo que não queríamos. Isso é normal.

6 – Aprender a gerir a fome emocional

Todos nós temos uma relação emocional com a comida. Todos nos refugiamos nela em busca de consolo, alívio ou simplesmente prazer perante situações de stress, ansiedade, isolamento, tristeza ou outros problemas emocionais. Não é preciso dizer que, na esmagadora maioria das vezes, esta fome emocional é pelos alimentos “maus”…

Se riscar da alimentação uma série de alimentos faz sentido para si e resulta, óptimo. Mas se não consegue eliminar da sua vida as batatas fritas, os gelados, os bolos, a massa ou o pão, saiba que há uma outra abordagem. Consiste em perceber as causas da nossa fome por esse tipo de alimentos.

Neste artigo, explico melhor o que é isto da fome emocional e como pode começar a desconstruí-la. Mas a ideia de base é apercebermo-nos dos nossos padrões alimentares: quais são os “gatilhos” que nos levam a comer de forma emocional? Em que circunstâncias ocorrem? Que pensamentos ou crenças estão associadas? Em vez de um inimigo a combater, a fome emocional pode até ser um guia, que nos dá pistas preciosas sobre que áreas da nossa vida podem estar em desequilíbrio.

Se se limitar a seguir a lista do que pode ou não comer, nunca vai fazer este trabalho de casa. E – garanto – ele é fundamental para termos uma relação saudável e livre com a comida.

Artigo originalmente publicado no site do Jornal Público

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